Despertar, desesperar, adormecer

10/04/2017

A secreção acumulada impedia a correta abertura dos olhos, trabalho dificultado pelo ardor que sentia pelo suor escorrido da testa. Como nos outros dias, sentia-se mais cansado ao despertar do que ao se deitar. Pela posição do sol na parede ao lado da cama, sabia que a manhã havia terminado e não muito mais restava para a tarde ceder lugar à noite. Não tinha pressa, porém. Não havia motivos para se levantar. Era esperado por ninguém. Seria visitado por ninguém. Ninguém lhe faria companhia.

Olhou para o lado e viu o único objeto vivo daquela casa, um fraco ventilador que balançava uma pilha de folhas sobre a mesa de forma que um intermitente ruído lhe penetrava os ouvidos durante toda sua permanência na cama. Atribuíra certa vez seu sono a este monótono som. Não mais tomou os remédios para dormir. Não mais tomou os remédios. Não mais atendeu às ligações da clínica. Não mais atendeu às ligações.

Sentiu um leve contorcer no estômago. Lembrou-se de que não se lembrava há quantos dias não comia. Isso, porém, ainda não causava desconforto suficiente para se levantar e observar o que acontecia nos outros cômodos da casa. A poeira acumulada, pratos sujos, correspondências molhadas, plantas secas.

Um barulho alto na janela o fez erguer o torso. Foi seu último movimento voluntário. Uma figura escurecia a visão do azul que lhe servia como lembrete de que havia vida lá fora. Já estava dentro do quarto caminhando e apesar de não ser possível lhe ver o rosto, sabia que procurava seus olhos machucados pelo suor.

Com o pouco da força que lhe restava da noite mal dormida, tentou se levantar e correr. Estava imóvel. Pensou em gritar para… quem? Não foi possível. Observava imóvel a aproximação da figura sem rosto aparente que lentamente percorria todo o lado da cama até se sentar ao seu lado. Sentiu as costas tocarem o frio lençol molhado de suor.

Os olhos inexistentes da figura invadiam os seus pensamentos. Foi quando, num movimento ágil e inesperado, sentiu ser tocado pela ponta do dedo indicador sem unha da figura em seu ventre. O frio mais gélido que já experimentara percorreu sua coluna, fazendo com que o lençol molhado parecesse confortável.

A figura passeava com o dedo por sua pele até chegar ao umbigo. Num único e brusco movimento, demonstrando uma agilidade que seu aspecto não lhe conferia, todo aquele dedo sem unha se encontrava dentro de seu corpo, à espera dos demais dedos que não tardaram em seguir o mesmo caminho.

Foi anestesiado pela própria dor. Outro já estaria desacordado. Ele continuava a assistir àquela cena. Imóvel, mudo. Via quatro dedos de cada mão da figura forçando seu umbigo, buscando uma visão de dentro de seu corpo.

Tendo obtido o acesso que buscava, a figura agora aproximava sua cabeça da entrada feita naquele ventre. Observou pausadamente e, no mesmo e inesperado movimento anterior, colocou sua cabeça. Pescoço, braços e tórax foram os seguintes. Por último, os pés.

Existia outro agora. Fechou os olhos. Dormiu.

Deixe seu comentário