Carta e arrependimento

03/03/2021

“Querida mãezinha, peço a sua benção. Cheguei à cidade. Estou morando em um quarto perto do Centro e da igreja de Nossa Senhora, como a senhora havia recomendado. Não fique preocupada. Já conversei com o padre. O nome dele é Roberto e parece ser muito bondoso. Estive com o dono de uma fábrica de sorvetes, o seu Micael. Ele me deixou andar com um de seus carrinhos. Estou trabalhando de picolezeiro. Assim que ganhar um dinheiro a mais, farei uma visita à senhora. Um dia a senhora poderá me visitar. Vou comprar algumas fichas para te ligar em breve. Mãe, fique com Deus. Na próxima vez, terei boas notícias, com certeza. Eu te amo. Beijo. Seu filho.”

As lembranças de décadas passadas são frágeis em minha memória. Com certeza, não foram essas as palavras. Nem a variante utilizada da língua. Mas essa era a essência. Lembro-me da palavra picolezeiro, que em minha inocência e ignorância, achava divertida por sua sonoridade.

Essas palavras incertas, porém, continuam preenchendo o compartimento em que guardo alguns incômodos. O floreio, para não utilizar a palavra arrependimento, se dá por não saber ao certo do que se trata. Não obstante, incomoda. O suficiente para estar aqui em busca de alívio. Eu não escrevi essa mensagem. Tampouco era seu destinatário. Porém, quando criança, abri e li algo que não me pertencia.

Na casa de minha infância, toda correspondência que chegava era separada e colocada sobre um móvel de madeira na sala. Em um dia, essa carta estranha estava lá. Um envelope diferente de todos os que eu já havia visto. Cheio de quadriculados verdes e amarelos e um grande selo carimbado. Embora eu ainda não soubesse, era a carta de um filho para a sua mãe. E qualquer que tenha sido o motivo, ela foi parar em minhas mãos. Como um brinquedo inusitado para uma criança inquieta.

Infelizmente, essa mensagem não chegou às mãos da mãe destinatária. Não sei em que ponto ocorreu o erro que a levou até minha casa. Não sei se as outras cartas daquele filho finalmente chegaram a sua mãe. Desejo que essa comunicação tenha se restabelecido e que os planos de vida do jovem remetente tenham se realizado.

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