Telefone público

16/05/2020

Na calçada da igreja havia um telefone público que era utilizado por moradores de rua, pois, por algum motivo, fazia ligações gratuitas para qualquer número dentro da cidade. E apenas dentro da cidade. Como essa informação correu pelos guetos do bairro, em pouco tempo o telefone público se tornou um ponto de encontro desses indivíduos. E não só, também se reuniam ali os catadores de recicláveis e os bêbados expulsos do bar que fica em frente à praça, duas quadras abaixo da igreja.

A demanda pelo uso do telefone público aumentava a cada dia. Colocando em prática uma logística complexa, esses indivíduos começaram a organizar o tempo de uso do telefone para evitar as constantes brigas no local e não assustar os fiéis que frequentavam a igreja aos domingos. O telefone público tornou-se o escritório dos excluídos. Por opção ou não.

O escolhido para ser o chefe desse escritório foi Monsenhor, o mais antigo vadio da região. A seu favor, a habilidade de fazer contas simples e rabiscar algumas palavras no papel além do próprio nome. Também era o que ainda conseguia manter a maioria dos dentes na boca. Seu segredo era, dizia entre altas gargalhadas incompatíveis para o ambiente laboral em torno do telefone público, um bochecho com cachaça pela manhã e outro pela noite. O conteúdo alcoólico deveria ser, entretanto, cuspido. As doses para degustação eram reservadas para o período compreendido entres esses dois momentos, após o expediente. Era de onde retirava a disposição para se manter atento às atribuições necessárias para chefiar o departamento semi ilegal de uso do telefone público.

O telefone público estava colocado próximo ao meio-fio recém-pintado, de costas para a rua e de frente para os últimos metros do pequeno muro da igreja e dos primeiros metros da da construção vizinha, um estacionamento abandonado. Isso tornava mais fácil a reunião dos desocupados, catadores de recicláveis, bêbados escorraçados, trabalhadores sem dinheiro e garis que utilizavam o espaço para seus almoços e confraternizações diárias.

O público do escritório do telefone público crescia a cada dia. Ao ponto que, eventualmente, engravatados de camisa branca e senhoras com longas saias oriundas da igreja distribuíam folhetos convidando a mixórdia à salvação.

Monsenhor organizou a utilização do telefone público em faixas de horas. Entre sete da manhã e sete da noite, as horas pares eram para realizar ligações e as horas ímpares eram para receber ligações. Dessa forma, dava oportunidade a todos de receberem ligações de familiares distantes ou, às vezes, a chamada para um emprego que fatalmente os tirariam do convívio da sociedade formada em torno do telefone público. Todos os atendimentos eram feitos por Monsenhor, que chamava a pessoa solicitada por três vezes. Se, por qualquer motivo, o interessado não estivesse ali, um recado era anotado e nas horas pares o indivíduo poderia retornar a ligação. Diz-se que certa vez o telefone tocou e a ligação era à procura de algum engravatado de camisa branca da igreja. Monsenhor, entretanto, nega.

Pedidos de casamento, pedidos de comida, pedidos de remédio e alguns trotes tornaram-se comuns. Os pedidos de casamento, na verdade, não tão comuns. Os trotes eram feitos quase todos pelos alunos da escola pública que ficava na mesma rua do bar que fica em frente à praça, duas quadras abaixo da igreja. O telefone público era democrático. Todos tinham direito a usufruir de suas ligações gratuitas para qualquer número dentro da cidade. E apenas dentro da cidade. Policiais, em meio as suas rondas, também utilizavam o telefone público. De um deles, um soldado, partiu o pedido de casamento que foi comentado por dias no local. Se precisasse, a igreja estava bem ali. Isso também explicava o motivo daquela aglomeração em frente aos últimos metros do muro da igreja não ter tido problemas com a lei. A organização daquele empreendimento social depunha a favor dos marginalizados em seu entorno. As brigas de outrora nem possuíam lugar à memória.

Certa manhã, Monsenhor bochechou o gole de cachaça que seria cuspido. Seria, não foi. De longe viu um ser estranho ao empreendimento coletivo manuseando o telefone público de forma atípica. Estacionado junto ao meio-fio um carro branco. Em seu teto, uma escada com um trapo vermelho amarrado no primeiro degrau. Monsenhor correu enquanto engolia a cachaça que deveria ser cuspida. O ser estranho guardava algumas ferramentas e começava a se dirigir ao carro. Ao ver Monsenhor esbaforido, cumprimentou-o e disse.

— Pode usar, já está prontinho.

Monsenhor não respondeu. Apenas olhou fixamente para o telefone público enquanto escutava o bater da porta do carro, seguido do barulho do motor e sua partida. Olhou um pouco mais, enquanto os primeiros frequentadores daquele escritório informal chegavam para o início dos trabalhos diários. Deu alguns passos, retirou o telefone do gancho e discou um número qualquer. Aterrorizado, ouviu a voz vinda do outro lado.

— Por favor, insira o cartão para completar a sua chamada.

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