Lasanha, lembrança e você

30/12/2019

Ainda criança, no tapete da sala, eu brincava com alguns velhos Power Rangers. Tentava, com a característica falta de habilidade infantil, fazê-los caber em alguns carrinhos com rodas faltando. Absorto em minhas atividades, mal percebia a presença de minha avó ali no ambiente. Foi quando, subitamente, ela se ajeitou de forma ruidosa no sofá. Logo após, colocou os cotovelos sobre as coxas e as mãos a apoiar o queixo.

Naquele momento, ainda segurando um boneco claramente maior que o carrinho à minha frente, não consegui entender se ela se posicionava para um pensamento mais profundo sobre algo relacionado à TV. Nada, porém, até aquele momento, era mais importante que o dilema do tamanho de meus brinquedos. Mas, isso estava prestes a mudar. Poucos segundos se passaram desde os pensamentos de minha avó pareceram voltar àquela sala. Foi quando ela pronunciou algumas palavras mágicas: farei uma lasanha para o almoço.

Almoço, aquele momento diário de refeição eu compreendia muito bem. Afinal, não é de hoje que eu gosto de comer. Mas, havia aquela outra palavra: lasanha. Eu, uma criança com paladar afeito a doces e, às vezes, um pouco de terra, desconhecia o significado daquilo. Mas, lasanha… O nome soava tão atraente, tão sonoro, tão gostoso. Estava curioso. O Power Ranger que procurasse uma outra forma de se locomover. Minha atenção infantil estava agora em outro lugar.

Em breve eu teria a primeira lasanha da minha vida. A comida que, ainda que não soubesse, me definiria enquanto sujeito. Definiria também a circunferência da minha cintura.

Os barulhos que vinham da cozinha, aliados ao aroma que preenchia a casa, me deixaram mais curioso. Fui até a porta. Dali, espiei o que se passava no recinto. Mesmo sem entender, eu sabia que era necessário respeitar a sacralidade que emanava dos movimentos que minha avó fazia. Eles pareciam desafiar todos os conceitos do espaço e tempo que eu sequer sabia da existência.

Admirei, com certa perplexidade, a sequência com que os ingredientes iam para a assadeira de vidro. Era a assadeira que ficava na parte de cima do armário, inacessível, reservada para momentos especiais. Um após o outro, como um intrincado quebra-cabeça, e, então, levados ao forno.

Como em uma cena de desenho animado, fui sobrevoando os já pouco passos que me separavam daquele objeto de desejo. Deixei meu nariz me guiar pelo aroma até a porta do forno, quente e iluminado. Estava extasiado, encantado por aquele objeto se transformando diante dos meus olhos. Olhei para a minha avó e perguntei, tropeçando nas palavras, quanto tempo mais duraria a tortura de não ter um pedaço daquela obra de arte gastronômica tocando os meus lábios.

Nunca, até então, na minha curta vida, tão poucos minutos haviam parecidos séculos. Mas, finalmente, estava lá. Reinante sobre a mesa, provocando os artistas de todas artes. Quando a faca tocou sua superfície, foi como se uma onda de choque rompesse a casa. Com o auxílio de uma espátula, o movimento gracioso de levar um pedaço magnífico até meu prato deixou um rastro de queijo derretido pelo caminho. Era como uma tentativa de guiar o prazer depositado meticulosamente naquela assadeira.

Foi, sem dúvida, inesquecível.

Até hoje eu imaginava aquela lasanha como o ápice do belo neste mundo. Como qualquer outra obra da criação poderia ser tão perfeita? Mas, não. Humano e falho que sou, estava enganado. Foram necessárias, literalmente, décadas, mas eu encontrei.

Você é mais bela do que aquela lasanha.

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