Após o fim e o retorno

03/02/2018

Foram duas centenas e algumas dezenas de dias no campo de batalha antes do retorno. Sua terra era vencedora. Bandeiras hasteadas nas principais esquinas, hinos repetidos no rádio, desfiles cívicos e cidadãos orgulhosos. O espírito da vitória pairava no ar. Jovens vestiam camisetas exaltando a pátria. Velhos disputavam entre si qual havia enviado mais filhos e netos para o outro continente. As crianças, essas corriam para continências desajeitadas em sua caminhada diária por pão e álcool.

Está mutilado. Pisa sobre as pedras na calçada em busca de alívio. Tenta contar as bandeiras pelo caminho. Aquelas mesmas cores cobriram os que lutaram ao seu lado. Todos retornam. Nem sempre como foram. Nunca como foram. Os que foram não existem. Os que ainda vão, não retornarão.

Mutilado. As partes que ficaram, aqui ou lá, estão perdidas. As continências das crianças o perseguem. O sorriso é vermelho. O pão é molhado na sopa. O quarto do prédio periférico é mais confortável que a barraca da outra terra, mas sonha com pés molhados e botas enlameadas. O som metálico do inferno o acorda todas as noites.

Os membros deformados transformam seu andar numa dança apocalíptica, bizarra e sensual. Desperta temores e desejos. Respirar, agora, é uma sinfonia de ruídos. A sopa lhe escorre pelos cantos da boca. Será esquecido como uma engrenagem sem dentes. Continua vivo, mas perdera a vida.

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