Carta e arrependimento

03/03/2021

“Querida mãezinha, peço a sua benção. Cheguei à cidade. Estou morando em um quarto perto do Centro e da igreja de Nossa Senhora, como a senhora havia recomendado. Não fique preocupada. Já conversei com o padre. O nome dele é Roberto e parece ser muito bondoso. Estive com o dono de uma fábrica de sorvetes, o seu Micael. Ele me deixou andar com um de seus carrinhos. Estou trabalhando de picolezeiro. Assim que ganhar um dinheiro a mais, farei uma visita à senhora. Um dia a senhora poderá me visitar. Vou comprar algumas fichas para te ligar em breve. Mãe, fique com Deus. Na próxima vez, terei boas notícias, com certeza. Eu te amo. Beijo. Seu filho.”

Lembranças de uma livraria Saraiva

12/02/2021

Com certa frequência, busco textos sobre as “melhores livrarias da cidade”. Normalmente, me deparo com as mesmas listas de sempre. Em minha última busca, entretanto, encontrei uma lista nova. Ela continha os mesmos locais das outras, no entanto, dessa vez, algumas fotografias a ilustravam. Uma dessas fotos me trouxe ternas recordações.

Telefone público

16/05/2020

Na calçada da igreja havia um telefone público que era utilizado por moradores de rua, pois, por algum motivo, fazia ligações gratuitas para qualquer número dentro da cidade. E apenas dentro da cidade. Como essa informação correu pelos guetos do bairro, em pouco tempo o telefone público se tornou um ponto de encontro desses indivíduos. E não só, também se reuniam ali os catadores de recicláveis e os bêbados expulsos do bar que fica em frente à praça, duas quadras abaixo da igreja.

Lasanha, lembrança e você

30/12/2019

Ainda criança, no tapete da sala, eu brincava com alguns velhos Power Rangers. Tentava, com a característica falta de habilidade infantil, fazê-los caber em alguns carrinhos com rodas faltando. Absorto em minhas atividades, mal percebia a presença de minha avó ali no ambiente. Foi quando, subitamente, ela se ajeitou de forma ruidosa no sofá. Logo após, colocou os cotovelos sobre as coxas e as mãos a apoiar o queixo.

Após o fim e o retorno

03/02/2018

Foram duas centenas e algumas dezenas de dias no campo de batalha antes do retorno. Sua terra era vencedora. Bandeiras hasteadas nas principais esquinas, hinos repetidos no rádio, desfiles cívicos e cidadãos orgulhosos. O espírito da vitória pairava no ar. Jovens vestiam camisetas exaltando a pátria. Velhos disputavam entre si qual havia enviado mais filhos e netos para o outro continente. As crianças, essas corriam para continências desajeitadas em sua caminhada diária por pão e álcool.

Despertar, desesperar, adormecer

10/04/2017

A secreção acumulada impedia a correta abertura dos olhos, trabalho dificultado pelo ardor que sentia pelo suor escorrido da testa. Como nos outros dias, sentia-se mais cansado ao despertar do que ao se deitar. Pela posição do sol na parede ao lado da cama, sabia que a manhã havia terminado e não muito mais restava para a tarde ceder lugar à noite. Não tinha pressa, porém. Não havia motivos para se levantar. Era esperado por ninguém. Seria visitado por ninguém. Ninguém lhe faria companhia.